segunda-feira, 7 de abril de 2008

Madame Bovary, nós te entendemos!

Esse post vai pros meus alunos do 2 ano médio do Colégio Cener, pois foi junto a vocês que me veio a idéia de escrever sobre sobre essa personagem tão fascinante da literatura realista francesa. Além de ser uma homenagem a Emma de Flaubert, a heroína que "chegou atrasada" para o romantismo, aproveito para saudar também nosso célebre Machado de Assis, suas mulheres e seus olhares. Saudações à Rita, Conceição, Marcela, Virgília, Sofia, e é claro, à mais enigmática e intrigante personagem feminina de Machado, a eterna Capitu, com seus "olhos de ressaca", "olhos de cigana oblíqua e dissimulada".

Emma, foi sem dúvida, uma mulher a viver fora do seu tempo, fora da realidade exigida por sua época. Ao longo de toda a história da humanidade, e diante da estrutura legal e política de cada época, muitos foram os fatores que levaram à construção de heroínas assassinadas ou suicidas no romantismo do século XIX espremidas entre o casamento e a maternidade. Afinal, vale lembrar que nem sempre as mulheres quiseram o casamento, nem sempre elas foram inativas politicamente, mas foram, sem dúvida, objetos de uma legalidade sobre a qual não tinham nenhuma chance. Foi exatamente por criticar essa ilusão moralista romântica; por criticar os desajustes e a falsidade de atitudes da burguesia; por romper com a subjetividade sentimental e promover um aprofundamento na análise pscológica dos personagens, que Madame Bovary é considerada a obra inicail do realismo francês.

É bom lembrar de ler ou reler Madame Bovary hoje. Para muita gente ainda pode ser escândalo uma mulher adúltera por não se realizar no casamento (do qual, diferente de nós, hoje, ela não podia fugir). Marcante também é o desenho do homem deste romance, que também escandalizou e ainda escandaliza: tanto o pai, quanto o marido, bem como os dois amantes de Emma, aparecem como homens fracos, banais, sem vigor, sem caráter, sem brilho. Se os homens do século XIX têm muito medo do caos que as mulheres podem trazer ao mundo do poder, é porque também sabem que a lucidez pode desmascará-los. Sempre pensamos que são as mulheres que desejam amparo, amor, atenção e reconhecimento dos homens. Mas não estaria aí invertida esta posição comum? Pode um homem viver sem a honra que é “o que os outros pensam”. Para evitar que saibam é preciso sustentar muita mentira.

Em um artigo publicado pela filósofa Márcia Tiburi, da UFRS sobre os 150 anos de Madame Bovary, a professora afirma que Emma comete suicídio como quem dá fim a uma mulher que vivia de ilusões e foi traída. Segunda Márcia, Emma é o Jesus Cristo de todas as mulheres contemporâneas. Ela morreu para nos salvar da imbecilidade e da menoridade da qual podemos ser as culpadas.

Por tudo isso Madame Bovary, nós te endemos!
Abraço carinhoso aos meus queridos pupilos do 2 ano, pois com vocês, as aulas de literatura tem sido com todas deveriam ser, um enorme prazer!!!

4 comentários:

Fran disse...

Amei o texto, estou doida para ir para o segundo ano, pra estudar sobre a Madame Bovary,

Renata disse...

Fran, minha linda!!! Q bom q vc gostou. Precisa esperar chegar no 2ano n�o. J� pode ir come�ando... Tenho certeza de que vai gostar. Bjokas e at� semana q vem (com as pasta completa hein rsrs)

Camilo disse...

Desconheço a personagem,mas mt me agrada a postura anti-sexualista tomada pela narrativa.Pois em contraponto ao romantismo,a nada mulher ideazada(Madame Bovary) parece encarnar o ser humano,nu e cru,corajoso p ser o q é.Antes de homem,mulher,velho ou criança,somos humanos,detentores de virtudes e defeitos q tendem a fortalecer nossa alma,ou derrocar nosso ego.Sucesso e força sempre Renata,serei assíduo ao teu blog!!!!

Renata disse...

É exatamente isso! Você entedeu bem o recado. O próprio autor do livro (Gustave Flaubert)chocou a sociedade da época ao anuciar em público: "Madame Bovary cest moi". Ela somos nós todos, q estamos de saco cheio dessas chatices que nos são impostas, sem ao menos nos ser dada alguma chance de escolher. Um Abração querido! Conto com sua participação aqui sempre.